top of page

Como as tendências causam a popularidade momentânea de produtos, elevando os preços e afetando o comércio internacional?

26 de set. de 2025
4 min de leitura

Atualizado: 29 de set. de 2025

por Luiza Job consultora na Atlântica Consultoria Internacional


Nos últimos anos, com o aumento das redes sociais, a forma como consumimos mudou radicalmente. O mercado passou a ser guiado por vídeos do TikTok ou Instagram, com vídeos cursos que criam tendências que são disseminadas por todo o Brasil, ou até mesmo internacionalmente. Hoje já não é necessário grandes campanhas publicitárias e anúncios, os hábitos de consumo mudaram e, consequentemente, a forma como o mercado se porta. O caso mais recente é o do “morango do amor”, doce que viralizou na internet e se tornou uma febre nacional, levando o consumo de morangos aumentar, os preços subirem e uma grande corrida dos comerciantes para suprir a demanda repentina. Mas por que isso acontece e como pode se refletir no comércio internacional?


Os especialistas chamam esse fenômeno de “Economia da Viralidade”. Nela, o que prevalece são conteúdos curtos e tendências momentâneas, que circulam na rede de forma orgânica e que tem como principal característica o engajamento imediato e massivo, com picos repentinos de demanda. Segundo a Deloitte, 63% da Geração Z e 43% dos millennials baseiam suas compras a partir da influência das redes sociais. No curto prazo, o resultado é a chamada inelasticidade de preço: a demanda cresce tanto que o consumidor aceita pagar mais caro, enquanto os produtores e comerciantes aproveitam a oportunidade para maximizar ganhos.


O caso do morango do amor


O caso do “morango do amor” foi um caso que explicitou de forma clara essa Economia da Viralidade. Segundo dados da Ceagesp, em São Paulo, o preço médio da caixa de morango aumentou 77% em julho de 2025, passando de R$27 para mais de R$48. Em Porto Alegre, o valor do quilo do morango chegou a dobrar em apenas dois dias. A Conab já havia apontado que, em períodos de pico, o preço do morango pode subir até 40% acima da média, mas a viralidade elevou essa pressão a um novo patamar. E esse fenômeno não ficou restrito apenas ao morango, mas a ingredientes complementares, como o açúcar, creme e chocolate.


Paralelamente, as vendas aumentaram. De acordo com a plataforma Yooga, 580 docerias venderam 127,8 mil unidades de morango do amor em apenas 15 dias, movimentando cerca de R$3,1 milhões. O iFood registrou um salto de 11 mil pedidos em junho para 275 mil em julho, crescimento superior a 2.300%. Só neste mês, mais de 524 mil unidades foram entregues, ultrapassando todo o volume comercializado em 2024. Até cursos online sobre como produzir e vender o doce entraram na onda: a Hotmart reportou crescimento de 343% nas vendas de e-books e treinamentos, movimentando aproximadamente R$100 mil.


Esses números demonstram como a febre vai além do produto em si, ela afeta toda a cadeia de produção e distribuição. 


Impactos sobre o mercado


O caso do morango do amor mostra de forma clara os impactos dessa tendência sobre a cadeia de suprimentos e o comércio, tanto os lados positivos quanto negativos. A safra do morango no Rio Grande do Sul havia sido prejudicada pelo inverno rigoroso, o que levou o comércio a importar o produto do exterior para conseguir suprir a demanda, causando uma elevação dos custos de transporte e revelando problemas logísticos. 


Embora a febre do morango do amor tenha ocorrido em escala nacional, é possível analisar o problema para o comércio internacional se a tendência escalar para um nível internacional. Em escala internacional, esses efeitos seriam ainda mais intensos, especialmente no caso de produtos cuja produção está concentrada em poucos países, como eletrônicos na Ásia, perfumes na França ou vinhos italianos. Quando um item desses se torna viral, a demanda global pode rapidamente superar a oferta disponível, desencadeando corridas de consumo entre importadores e distribuidores. Isso pressiona fretes, estoques e prazos de entrega, eleva custos e pode gerar desequilíbrios comerciais temporários, evidenciando como uma tendência viral pode alterar não apenas mercados locais, mas também redes logísticas e fluxos comerciais em escala global.


Essa dinâmica pode gerar desequilíbrios comerciais temporários, com aumentos das importações e uma dependência momentânea de um único item. Além disso, a logística internacional funciona em ciclos longos, o que significa que uma onda inesperada de pedidos pode sobrecarregar portos, navios e armazéns, encarecendo fretes marítimos e aéreos. Assim, um vídeo viral gravado em São Paulo pode ter reflexos em transportadoras na China, operadores logísticos na Europa e distribuidores na América do Norte.


Para empreendedores e marcas, esse fenômeno possui dois lados. De um lado, a viralidade oferece ganhos rápidos e visibilidade inédita, permitindo que pequenos negócios tenham um aumento grande de vendas em poucas semanas. O próprio morango do amor ilustra essa realidade, já que docerias que nunca haviam enfrentado tanta procura viram seus lucros multiplicarem em tempo recorde. Por outro lado, os riscos são significativos. 


A volatilidade faz com que a febre possa terminar tão rápido quanto começou, deixando estoques encalhados. Soma-se a isso a baixa retenção de clientes, já que nem todos os consumidores que compram por impulso se tornam fiéis, além da pressão operacional para escalar a produção em ritmo acelerado, o que pode gerar desperdícios, custos extras e problemas de qualidade. Também existe o problema de focar muito em uma única tendência, visto que eventualmente ela irá passar e o negócio terá que continuar a produzir e lucrar se ela.


Para minimizar esse risco, muitas marcas adotam estratégias de reinvenção, como criar variações do produto viral, oferecendo novas versões ou combinações, ou utilizar o sucesso momentâneo como porta de entrada para outros itens do catálogo. Dessa forma, conseguem não apenas prolongar o interesse dos consumidores, mas também diversificar suas fontes de receita e reduzir a vulnerabilidade frente às oscilações de mercado.


Ainda que a febre do morango do amor tenda a perder força com o tempo, ela deixa um estudo muito valioso sobre a economia contemporânea. Um doce que viraliza é capaz não apenas de dobrar preços em feiras e supermercados, mas também de movimentar milhões em vendas digitais, criar novos fluxos logísticos e até influenciar balanços comerciais. Esse é o retrato da economia atual: um único vídeo pode redesenhar cadeias produtivas inteiras.


No curto prazo, isso gera oportunidades extraordinárias; no longo, evidencia a necessidade de estratégias de resiliência, planejamento de estoques e adaptação rápida, para que empresas e produtores consigam aproveitar a onda sem serem engolidos por ela. Em suma, o morango do amor vai além de uma curiosidade gastronômica: é um estudo de caso as redes sociais e as tendências do mundo digital estão impactando o comércio internacional.

Referências



 
 
 

Comentários


bottom of page